
Reforma Protestante: resumo, contexto, consequências, a contrarreforma e os impactos na Igreja atual
No dia 31 de outubro de 2020, comemoramos 503 anos da Reforma Protestante, um dos eventos mais importantes de toda a história da fé cristã. Frases e imagens de Lutero circulam nas redes sociais, seus amigos calvinistas exaltam os feitos dos reformadores e provavelmente seu pastor, reverendo ou padre comentou sobre isso em alguma celebração. O que nem todos eles sabem, é que a Reforma Protestante mudou o rumo da história e da cultura ocidental e continua tão ou mais atual, quanto sua eclosão em 1517. Gilbertus Voet já dizia, “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est” — Igreja Reformada, sempre se reformando. A ideia aqui não é discutir ponto a ponto os detalhes da Reforma. Contudo, quero te entregar um panorama prático sobre o contexto político, econômico, histórico, social e teológico dessa nova visão sobre Deus e sua relação com o homem. Vamos lá!? O que foi a Reforma Protestante? A Reforma Protestante foi um movimento que surgiu como reação às práticas adotadas pela Igreja Católica até meados do século XVI, que até então era o maior expoente do cristianismo no mundo. Já havia uma discussão firmada entre alguns líderes da igreja católica, acerca de práticas e costumes instaurados pelo clero daquela época, mas que não necessariamente eram unanimidade teológica. Martinho Lutero, um monge católico alemão, estava insatisfeito com algumas dessas práticas e doutrinas, principalmente do ponto de vista teológico. Partiu dele, o que muitos consideram, o maior marco da Reforma Protestante: a fixação das 95 teses, em 31 de outubro de 1517, no muro da igreja do castelo de Winnttenberg. Antes de entrarmos nos méritos de Lutero e as 95 teses, porém, é necessário entender o contexto pelo qual esse movimento aconteceu. Pré-reforma A Pré-Reforma é o nome atribuído ao período de antecede a eclosão e disseminação da Reforma Protestante na Europa. Estudiosos dizem que esse processo se iniciou ao final do século XIII, se estendendo até meados do século XVI. Durante esse período surgiram discussões sobre o conjunto de valores, costumes e práticas adotadas pelos líderes da igreja católica que não exerciam o zelo com o texto bíblico, sendo denominados, em muitos casos, hereges. Nessa perspectiva, visando alinhar os valores da igreja cristã que havia se espalhado mundo afora, centrando-se somente na visão bíblica, alguns homens começaram a questionar o catolicismo romano e sua doutrina. John Wycliffe e Jan Hus (falaremos mais deles a frente) foram grandes inspirações de Lutero e antes do período histórico que compreende a Reforma Protestante, já denunciavam costumes e valores da igreja católica, descentradas das escrituras sagradas. Ambos foram perseguidos e mortos antes que o movimento ganhasse a força que conquistou anos depois com Lutero. Porque a Reforma Protestante aconteceu? A Reforma eclodiu na Europa que era o centro econômico, político e espiritual do mundo naquela época. Estamos falando aqui de algumas décadas após o fim da Idade Média (1453). Vale lembrar que a Idade Média termina com a tomada de Constantinopla (considerada o “centro do mundo”) do Império Bizantino pelos turcos, ressignificando toda a estrutura de poder na Europa. Esse fato culminou num processo de centralização de poder nos Reis (ou famílias reais), o que fez a relação com a Igreja criar ruídos e dissonâncias. A Igreja Católica cresceu adquirindo poder e até aquela época era o centro da força espiritual e psicológica, consequentemente, o que atribuía forte influência administrativa e política em todas as esferas da sociedade. Como possuía muitas extensões de terras, a Igreja Católica recebia muitos tributos da população e seus governantes. Esses recursos eram enviados à Roma e controlados pelo Papa (autoridade máxima do catolicismo). Tal prática, desagradava à monarcas, que queriam receber os impostos por aquelas terras, e camponeses, que pagavam tributos cada vez mais caros aos bispos, padres e monges locais. Por isso, muitos reformadores foram apoiados por monarcas de determinados países. Após o fim da Idade Média, tais práticas passaram a ser fortemente questionadas e combatidas por todas as partes. As autoridades eclesiásticas usavam de sua influência e poder para obter vantagens. O alto clero comandava práticas como a venda de cargos dentro da igreja e venda de indulgências, ou seja, troca do “perdão de Deus” por quantias em dinheiro. Do ponto de vista teológico, parte da liderança da Igreja Católica havia se distanciado da essência da mensagem de Cristo. Os usos e costumes que agradavam a liderança eclesiástica se tornaram mais importantes no regimento das celebrações religiosas, que a própria Bíblia e seu conteúdo. É aqui que entra a figura de Martinho Lutero na história. Lutero e as 95 teses Martinho Lutero foi um monge agostiniano alemão, que não concordava com algumas práticas da Igreja Católica e tomou a decisão de criticar o sistema religioso adotado. Lutero documentou 95 pontos de discussão, baseados naquilo que não acreditava ser bíblico, na estrutura religiosa cristã da época. Em 31 de outubro de 1517, no muro da igreja do castelo de Winnttenberg, Lutero fixou suas 95 teses com um convite formal e explícito à uma discussão com os principais teólogos daquela época, acerca de cada um dos seus pontos. Vale lembrar que Lutero nunca idealizou a divisão da Igreja, mas uma reforma em suas práticas. As 95 teses contestavam a veracidade teológica das indulgências, dos usos e costumes da Igreja Católica e do poder atribuído ao Papa como mediador entre Deus e os homens. Isso fica claro na últimas 8 teses, como se segue: 88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis? 89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes? 90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.


